quinta-feira, 25 de setembro de 2008

RETALHOS DA REVOLUÇÃO - GOLPE MILITAR 64

30 de Março de 1964, 21:15. Ali estava em um fila para comprar duas entradas e assistirmos a um filme. Logo eu que tinha pavor a filas, más aguardava pacientemente chegar minha vez. Olhei para trás e notei que aos poucos aumentava o número de pessoas que também pretendiam assistir ao filme. Voltei a olhar para frente, e percebi que apenas quatro estavam na minha frente. Naquele momento, uma jovem senhora grávida, aparentando entre 20 a 22 anos, conversou baixinho, com o senhor que seria o próximo a adquirir o ingresso, e ele prontamente, atendeu a solicitação lhe permitindo de imediato passar a sua frente. A jovem tirou o dinheiro de uma bolsa, e pediu 2 ingressos. Alguém atrás não satisfeito, gritou. Ei moça, gravidez não é doença, seu lugar é lá atrás. Estou há quase uma hora esperando, e não vou aceitar que passe na minha frente. Seu guarda, tem gente tentando furar a fila, faça alguma coisa, esbracejou aquele senhor. O Guarda, que era que um simples funcionário do cinema, nada mais poderia fazer, a moça já havia comprado seus ingressos, e ainda dirigiu um largo sorriso em direção a seu interlocutor. Ao meu lado, com um leve sorriso estampado na face estava Mary me olhando, más não demonstrava nenhum sinal de cansaço, ela fez apenas um breve comentário. "Não custa nada as pessoas respeitarem uma mulher grávida, não é amor? é verdade, tens toda razão, minha linda. Só quero ver quando estiveres nesse estado, não vou admitir que nenhum filho da mãe lhe falte com o devido respeito e que todas mulheres grávidas merecem. Aquele comentário foi o suficiente para ganhar um afago com muito carinho e um olhar de agradecimento. A maternidade era o sonho de Mary. Já estavámos namorando há quase 8 meses e nada acontecia, sequer a menstruação dela atrasava. Também aceitava a ideia de termos um filho, homem ou mulher. Essa criança seria para consolidar o amor que havia entre nós. Agora eu era o terceiro da fila, e logo seria minha vez. Pouco me importava com a demora, alias sequer sabia o nome do filme que estávamos prestes a assistir. Então porque me irritar com pequenos detalhes? afinal estava em férias, e curtindo com muita alegria, e ainda tinha a felicidade de me livrar de um trabalho muito estressante, sem contar com o prazer de estar junto a pessoa que amava. Aquele era meu primeiro dia de férias, e durante os próximos 30 dias seguintes, não iria ouvir a voz de nenhum Oficial gritando em meus ouvidos, e também deixar de escutar reclamações de cabos e soldados. Eu era um militar insatisfeito, no meu íntimo me sentia um fracassado naquela vida. Não aceitava as humilhações vinda de pessoas incapazes de sobreviver na vida civil, e que se achava superior, apenas por ter uma patente acima dos outros. Sempre fui uma pessoa muito liberal, e aquele sistema me oprimia. Não aceitava ser repreendido por ninguém quando não havia razão para isso. Também, era incapaz de humilhar qualquer pessoa mesmo sendo de patentes abaixo da minha, muito pelo contrário, era uma pessoa comum, adorado pelo cabos e soldados que conviviam comigo, e respeitado pelos meus superiores, talvez por não aceitar a submissão tão comum nos Quartéis. Essa era minha maneira de encarar a vida militar, más com certeza, não é comum nas Forças Armadas. Eu estava no lugar errado. Meus pensamentos foram subitamente interrompidos pela voz de Maryangela; somos os próximos, falou. Realmente, restava apenas uma senhora de meia idade que sequer olhou para os lados durante a longa espera, ou fez qualquer comentário pela morosidade da pessoa que vendia as entradas, e ela tinha todo direito de reclamar. Quem olhasse para mim sentiria inveja, meu rosto era só felicidade, tinha ao meu lado, uma tremenda gata negra, exuberante na sua postura. Uma morena de encher os olhos de qualquer mortal. Corpo escultural, trajando um pequeno vestido branco, contrastando com sua pele cor de Ébano, totalmente colado a seu perfeito corpo, com alguns centímetros acima dos lindos e torneados joelhos que se uniam a um belo par de pernas, que pareciam terem sido esculpidas por um artista contemporâneo. Porque me preocupar com o dia seguinte se me sentia feliz e tinha o amor daquela linda mulher e a certeza que era correspondido com o mesmo entusiasmo? aquele momento era somente nosso e não dividiria com ninguém mesmo que fosse tachado como egoísta. A primeira sessão acabara no momento previsto. Eram 21:35h. Pessoas começavam a sair, enquanto outros ficavam a observar os cartazes que divulgavam novos filmes que seriam exibido nos próximos dias. Entre as que saiam, algumas comentava que gostara da película, enquanto outras, falavam que poderia ter sido melhor se a mocinha não tivesse morrido. Finalmente chegou minha vez de comprar os benditos ingressos. Abri o porta-cédula, que estava recheada com parte da grana que tinha recebido do soldo "Nome dado ao salário nos Quartéis" mensal. A atendente perguntou, quantas entradas eu queria. Não deu tempo de responder. Ouvi um ruído abafado, parecia mais um som de um tiro. Moço, quantos ingressos? perguntou mais uma vez, e outros estampidos semelhantes ecoaram em sequência, então recolhi o dinheiro desta vez ao bolso da calça. Não havia dúvida, aqueles sons eram tiros sim, e de revólver calibre 3.8. Uma pessoa como eu, que lidava diariamente com todo tipo de armas leves e pesadas, jamais se enganaria. As pessoas que ali estavam não se davam conta do que estava acontecendo. Para elas, nada mais eram que pipocar de fogos de artifícios, muitos comuns nos festejos Juaninos, também em comemorações e comícios políticos. Em outra quadra, por trás da Rua do comércio onde estava localizado o Cine São Luiz, mais precisamente na praça da Assembleia Legislativa, iria acontecer um comício, e aqueles estampidos bem que poderiam ser confundidos com fogos de São João. Mary, ouviste esses tiros? que tiros meu amor? não ouvi nada. Acorda querido, no momento,não estais no Quartel. Os tiros estão vindo daquela direç...., não cheguei a completar a frase. Gritos, pedido de socorro chegavam até nós com uma intensidade maior que o vento podia propalar. Seguido a estes pedidos, um orda de pessoas corriam como loucos pela parte central da rua, parecia mais um estouro de uma manada de búfalos desgarrada e totalmente sem controle. Todos que estavam em frente ao cinema não tinham a menor ideia do que estava acontecendo. Olhavam um para o outro para receber uma resposta que ninguém tinha. Eu mesma, fiquei atónito, más a resposta estava clara, Algo muito sério havia acontecido naquele comício. Deixa-mos a fila , e ficamos bem próximo a porta de entrada que seria uma maneira de escapar de uma bala perdida. Nesse momento, três jovens, de cabeça raspada, sem camisa, portando uma bandeira do Brasil grudada a extremidade de um pau, que mais parecia um taco que se usa para jogar baseball, gritaram em alto e bom tom "corram, a polícia tá mandando bala para todos os lados, lá na praça. Aquilo não estava me agradando. Meu instinto militar, me impelia para me afastar o mais rápido possível daquele local. Segurei Mary pelo braço, e em passos rápidos começamos a nos afastar do provável campo de batalha. Entramos na primeira porta que encontramos aberta, e fomos os últimos, porque logo em seguida foram fechadas pelo dono do bar, pois já havia gente demais naquele ambiente tão pequeno. O então Bar do Relógio, era assim conhecido, por ter incrustado um relógio em sua parede frontal. Um prédio de construção muito antiga, localizado na área central da cidade, esquina Rua do comércio com.........Suas paredes tinham quase meio metro de espessura. As portas com mais de dois metros de altura, no estilo colonial, com desenhos esculpidos a mão e, em madeira de lei, garantia segurança total aos que estavam naquele momento presos pelas circunstâncias. O ambiente estava muito tenso, as pessoas não se encaravam, era um silêncio quase total, quebrado apenas pelo bate pato de quatro amigos; possivelmente frequentadores assíduos do bar. Eles conversavam em um tom de voz que não pertubava os pensamentos do restante que ali estavam. Dava para perceber que já estavam a bastante tempo no local, já que havia uma grande quantidade de garrafas de cervejas vazias, como também sequer perguntaram o que tantas pessoas estavam se acotovelando naquele ambiente de pequenas proporções. Encostei-me a parede tão logo tive oportunidade. Puxei a Mary pela cintura, para que apoiasse seu corpo ao meu. Ela já apresentava sinais de cansaço, más sempre sorrindo levantava a cabeça para receber um beijo, que fazia sem a menor cerimônia. Eram 11:45, o tempo passava lentamente, e lá de fora ainda se ouvia vozes alteradas, e algumas reclamações Voltei a olhar para o relógio para confirmar se não tinha me enganado quanto a leitura da hora, não era possível ver a hora errada em meu Mido Ocean star. Esse relógio era como uma jóia de minha estimação, tinha um formato único para a época, já que era lançamento na Europa, e em nenhuma loja em todo Brasil teria um similar. Fora comprado em Boa Vista Roraima de um senhor chamado José Pinheiro. Esta pessoa trazia de Georgetown" Capital da Guiana Inglesa" e vendia aos amigos e conhecidos, sem Nota Fiscal ou qualquer tipo garantia, mesmo assim não podíamos considerar aquele comércio com contrabando, mais sim, um ato ilegal e necessário em Boa Vista, por se encontrar distante dos grandes centros do Brasil. A cidade mais póxima era Manaus. Como não havia estrada ligando as duas cidades, tudo era transportado por barcos, que dependendo das águas dos rios levavam até 30 dias para receber qualquer mercadoria. Não se podia contar com avião, porque havia apenas um vôo mensal, realizado por um avião chamado de C 47 " Desce um e sobe sete" era o slogan que se usava para esse mísero vôo. Para quem vivia na cidade a solução era ser abastecida pelo Pais vizinho. Era comum se encontrar em vitrines de lojas local, os famoso perfumes Bond Street, bicicletas como a Humber inglesa, motocicletas e até carros. Tudo era possível se comprar e vender sem fiscalização, e foi nesta estada que passei por essa linda cidade, que comprei essa minha jóia, a qual já houvera recebido dezenas de propostas de compra, o que era de imediato recusada. Olhei ao meu redor, e descobrir no outro canto da parede os três rapazes que nos havia alertado sobre o incidente. Conversavam baixinho e olhava em minha direção. Eles ainda portavam os tacos de baseball, que agora já não tinha mais a Bandeira. Dois deles, estavam escorados na parede, o terceiro de costa para mim. Comecei a ficar incomodado quando em dado momento o que estava de costa, depois de um comentário entre eles, virou-se e me encarou. Comecei a fixar o olhar em sua direção, foi o suficiente para que voltasse a conversar entre eles. O calor já estava insuportável, O Ar rarefeito já estava difícil de respirar. Minha camisa estava só suor, colada ao corpo, ela deixava a mostra meu porte atlético, era feita em tecido de lycra que apesar de ser muito fina, não permitia a ventilação adequada. Mary, de vez em quando ficava na ponta dos pés para me beijar carinhosamente. Nestas ações, ela deixava a mostra suas bonitas pernas, e com aquele bumbum arqueado, era um colírio e, uma tentação, para qulaquer olhar indiscreto, daí então comecei a perceber que os olhares dos rapazes eram direcionados a minha namorada, e não a mim. Na minha fantasia, eles haviam percebido que era militar, e como vinham de um comício político frustado pela polícia, porque não dar o troco em um simples e indefeso militar? e se eles tinham a intenção de me atacar, eu já pensava como me defender e contra atacar. O elemento surpresa é sempre decisivo em qualquer combate, e minha ideia era ficar de posse de um daqueles Tacos. Esse seria o elemento surpresa. Na verdade, não era nada disso, tudo não passava apenas de minha imaginação fertil. Eles olhavam mesmo era aquele corpo perfeito e exuberante de minha deusa. Faltavam cinco minutos para meia noite. O senhor dono do bar, perguntou pra mim se poderia ajudá-lo a abrir as portas, pois não havia mais nada, nem ruídos vindos da rua. De imediato retiramos a tranca de madeira que era muito pesada para aquele senhor de estatura reduzida e magra carregá-la. As outras, foram também abertas pelos outros que ali se encontravam. De repente, o ambiente estava vazio, apenas eu a namorada, o dono do bar e os quatros amigos que ainda continuavam bebendo sua cerveja e nem se deram conta que o bar estava aberto, Acho que eles nem perceberam que o ambiente tinha fechado por quase duas horas.

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